Viola de 12 cordas
- Lugana Olaiá
- 21 de set. de 2022
- 3 min de leitura

Hoje fui deixar minha filha na escola e, e logo na entrada, estavam duas meninas. Uma negra e uma branca. Essa "entrega" da criança na escola precisa ser rápida, de manhã cedo, então durou uma fração de segundo o tempo entre o momento que eu vi as meninas e toda a sequência de eventos e pensamentos que me invadiram. Me perguntei o que significava a olhada que a coleguinha negra deu para minha filha, mas não consegui identificar.
Eu pensei: "será que essa menina trata ela bem?". Minha filha é animada! E saber disso me deixa apreensiva em algumas situações porque ela pode não encontrar animação de volta. Mas ainda bem que era cedo e sua empolgação ainda não estava altíssima. Ela cumprimentou a menina negra e a colega retribuiu o aceno também com um sorriso.
Elas eram mais velhas, minha filha tem 7 anos. A outra garota que estava ao lado perguntou sem tentar ser discreta: "você conhece ela?". A guria pretinha respondeu tão baixo que eu não entendi tudo o que ela disse, mas tinha algo depois do "conheço sim..." (Ficaremos curiosos sobre isso. Rsrs)
Daí eu fiquei pensando se o jeito que ela nos olhou quando entramos tinha relação com a companhia que estava com ela. Talvez ela já soubesse ali que, na presença da uma colega branca, ela teria que explicar aquele "oi" ao cumprimentar uma menina negra de outra classe. Mas eu mesma sou protagonista de vários "ois" para pais negros da escola mesmo sem conhecê-los de fato. Não sei seus nomes, nem quem são seus filhos, mas a gente se sabe, a gente sempre se nota e “se toca" nas encruzilhadas da escola.
Talvez todo esse meu sentimento de alerta tenha sido despertado porque ontem, antes de dormir, eu comecei a ler o livro de Viola Davis, “Em busca de mim”. Eu estava esperando um preço dentro do meu orçamento de dois reais e chegou o e-book numa promoção. Então, logo no primeiro capítulo, Viola fala da sua experiência traumática no terceiro ano da escola primária. Leiam!
Automaticamente eu fui tragada pela memória e me vi na lembrança do meu ensino fundamental. Me perguntei se isso acontece com todos que um dia foram crianças negras. Será que todas buscam outras crianças negras para serem suas aliadas na infância? Eu errei na minha percepção e eu tive momentos de muita infelicidade nessa descoberta. A minha amiga "como eu" (negra) não lia a nossa relação da mesma forma.
E é claro que a gente sabe que cada um tem suas afinidades e preferências. Mas quando um irmão de cor é perverso com outro, sem nenhum motivo além da vontade de entreter uma plateia de crianças brancas sedentas pela humilhação centrada apenas entre os pretos, tem alguma coisa que precisa ser observada com mais atenção aí. E, nem sempre, há quem tenha tempo, coragem e vontade de comprar essa briga.
Eu sou uma mulher negra independente, mas isso ainda não me faz sofrer menos quando outras pessoas pretas querem contribuir para o meu pior, gratuitamente. O objetivo delas, quase sempre, é seguir sendo a única pessoa de cor que “segura a prancha” entres brancos, e esperar que talvez assim eles passem a enxergar ela como branca também.
A grande maioria das mulheres negras que eu conheço já passaram por essas experiências de opressão e solidão no seu período escolar. Esse mesmo grupo enfrenta hoje, na fase adulta, questões sobre "como eu vou expressar a minha dor? Como vou pedir ajuda? Como mostrar que sou humana? Como mostrar que sou sensível? Como dizer que preciso das mesmas coisas que todas as pessoas?".
Estamos movimentando nossas estruturas internas. Assim vamos reposicionar os corpos, o intelecto, as emoções e a sabedoria de mulheres negras no mundo. Então sempre que puder, acolha uma mulher preta em transformação perto de você.
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