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Contos de morte e vida

Ao longo da vida, enfrentamos muitas mortes, muitos lutos e alguns renascimentos. Eu lido com lutos desde os seis anos. Vi a minha bisavó falecer na minha frente, acho que já devo ter contado essa história em algum momento e devo contá-la ainda muitas vezes na vida. Enfim, para uma criança, que ainda nem chegou a uma década na contagem de sua vida, entender o desaparecimento de alguém é complexo, ainda mais se ela, mesmo depois deste fatídico dia, segue brincando com a sua bisavó, como eu. Mas, antes de desfazer-se da vida física, vó Iaiá já se despedia de nós, dia a dia, já que suas lembranças iam se desfazendo como nuvens espaçadas no céu de primavera, riscos brancos em azul celeste sem fim… 


Tenho lembranças bonitas com ela, tem marcado em mim muito da mulher que ela foi (e é!), segui a sua profissão, construir um ateliê que era seu sonho. Mas, todo esse palavreado é para falar de outra coisa, de como presenciar lutos tão cedo, me ensinou a viver cada hora como se fosse a última e ser inteira com cada pessoa que encontro na vida. 


As três décadas (e uns quebrados) que me compõem hoje, já se despediu de tias, tios, avós, madrinhas, primos, primas, amigas, conhecidas, amores… famílias que me constitui, que me ensinou e que esteve ali, nos momentos em que eu moldava as melhores versões de mim. Despedidas bruscas, dolorosas, inesperadas (muitas vezes), que me rasgam a alma, me deixam catatônica e anseio que seja só um pesadelo sem graça. Mas, não é. 


O deixar de existir me desespera. O fio da sanidade se esgarça um pouco, sempre que fantasio, por um breve instante, a possibilidade de não viver plenamente os momentos com quem amo. Desfaço-me só de imaginar que por alguma desventura da vida eu não tenha mergulhado intensa na presença de alguém que se desfez fisicamente. Esse, talvez, seja o meu maior medo. De não saber qual a cor dos olhos da minha mãe, parafraseando Conceição Evaristo, uma coisa tão boba, mas que diz muito sobre ser e estar em presença. De não ter amado alguém suficiente, de não ter escutado as dores repetidamente, de não ter dançado na chuva ou de não ter dado aquele último mergulho de mar juntas. 

Mulher negra dançando na chuva
Foto: Emmanuel Joseph (retirada do Pexels)

Se eu estou, eu sou inteira. Eu olho nos seus olhos, eu te abraço com verdade, eu sonho, todos os seus sonhos, do mais simples aos megalomaníacos, junto com você, eu vou gargalhar alto e se duvidar começarei a chorar em seguida. Mas, você nunca me terá pela metade, mesmo que eu quebre a cara depois, o que lhe entreguei, parte de mim, não será devolvido, nem tomado. Você teve o melhor do que pude doar naquele espaço-tempo, eu estive ali, ainda que quebrada, pulsante, ainda que cansada, plena, ainda que destruída, amável, ainda que preocupada, atenta, ainda que… não importa, eu estarei lá. 


Não faz sentido algum para mim tocar o outro sem que isso seja de verdade, seja num abraço, numa conversa ou numa simples troca de olhares. Eu não quero viver na incerteza de não ter sido integral e por um plano irônico do destino nunca mais poder estar em presença com alguém, nunca mais poder dizer o quanto ela me tocou. Isso iria me corroer. Viver com o remorso de não ter feito tudo, não faz parte dos planos que prevejo para mim. Porque aprendi, desde cedo, desde sempre, que se você estar, esteja. Não se distraia, não se perca, não se esqueça. O tempo, ele não volta e o que ainda vai restar é o que construímos com o outro (se a memória permitir!), ainda que em saudades, ainda que em dor, ainda que em passado. Mas, é como você aperfeiçoa suas versões, então, não perca o momento, não perca o instante, não deixe que nada atrapalhe a possibilidade de viver-ser-estar com aquela que lhe proporciona verdades nesse limbo que é viver.

2 comentários


Vânia Regina
Vânia Regina
31 de out. de 2024

Me orgulho muito da mulher que tornou-se ao longo da vida. Toda a morte em vida sempre será para o nosso amadurecimento.

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Maria Rita
Maria Rita
31 de out. de 2024

Gostei muito do texto, são três décadas de morte e vida que participei junto com a escritora, e lhes digo, que em cada fase percorrida, saímos mais fortes com determinações.

Obrigado por me fazer companhia.

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